| Páscoa Global |
| Sexta, 23 Julho 2010 00:48 |
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Não a Páscoa da Ressurreição, nem a Passagem hebraica. Refiro-me a uma pequena ilha perdida no Pacífico a cerca de 3700 km do Chile, de cuja administração depende. Embora ainda com poucas certezas sobre a sua história, a pequena ilha de Páscoa ilustra de forma dramática o colapso de uma civilização que sobreutilizou os recursos naturais. Colonizada por povos da Polinésia, provavelmente entre os anos 600 a 800, com um clima favorável e dotada de uma rica floresta, rapidamente desenvolveu comunidades humanas que afirmavam o seu poder construindo as famosas estátuas de pedra, os Moais, algumas com mais de 20 metros de altura e que eram organizadas em santuários.
Mas a sua prosperidade ditou a sua decadência. A necessidade de madeira para as habitações, combustível e barcos para a pesca, conduziu a um abate crescente de árvores. Desconhecedores das consequências, continuaram o processo de abate muito para além da capacidade de regeneração da floresta. Transformou-se numa sociedade insustentável gastando mais recursos do que a natureza podia repor. Perante a falta de recursos, surgem as guerras, destroem-se os santuários, derrubam-se as estátuas. Sem árvores não há casas, sem árvores não há barcos para a pesca nem para a fuga. Prisioneiros na sua própria ilha, vítimas da sua própria prática insustentável, a misteriosa civilização da ilha de Páscoa desapareceu muito antes da chegada dos primeiros europeus que, por sua vez, trouxeram novas doenças e a escravatura, quase dizimando os poucos sobreviventes. Esta história é mais actual do que se pode imaginar. Nos primeiros 9 meses de 2009 foram consumidos todos os recursos que a natureza pode regenerar num ano. O último trimestre já foi por conta das reservas que a natureza acumulou. A pegada ecológica da humanidade (quantidade de terra e água necessária para sustentar as gerações actuais, tendo em conta todos os recursos materiais e energéticos gastos por uma determinada população) ultrapassou em 2009 a biocapacidade disponível. Este despesismo ecológico começa a ter custos. As alterações climáticas são hoje indesmentíveis. Mesmo aqueles que há dois ou três anos negavam esta evidência, admitem-na agora, mas os seus interesses não lhes permitem acompanhar a solução, apenas alteraram o discurso. Argumentam que no futuro teremos mais dinheiro e melhor tecnologia para resolver o problema. Portanto, deixa andar. A solução não será fácil quer dum ponto de vista político quer da consciência cívica. Vejamos o exemplo do CO2. Estima-se que a produção média anual por habitante não deveria ultrapassar as 3 toneladas. Na Europa produz-se 8 e nos Estados Unidos 25. Como vamos convencer europeus e norte-americanos a andar para trás? Como vamos convencer os países em desenvolvimento que têm de abrandar esse desenvolvimento para compensar o excesso dos países desenvolvidos? Estaria tentado ao pessimismo, pois a humanidade tem mostrado que aprende pouco com a história e não hesitará a repetir a dramática experiência da ilha da Páscoa. Mas talvez não. No problema do ozono soube-se dar resposta eficaz e em tempo útil. A poluição foi enfrentada tendo sido mobilizados recursos técnicos, legais e sociais para a controlar. Embora longe do ideal, os nossos rios, os campos e o ar que respiramos são melhores hoje que há uma década atrás. Claro que o CO2 é diferente. A sua emissão está essencialmente ligada à produção de energia. Os estados não quererão comprometer o seu desenvolvimento, as empresas não abdicarão das soluções energéticas mais baratas ainda que ambientalmente mais penalizadoras e os cidadãos não prescindirão do seu carro, do saco de plástico (ou do bife. Sim, a produção de carne é o segundo sector de produção de gases com efeito de estufo, a seguir à produção de energia, sendo que o metano tem um efeito 20 vezes superior ao CO2) e de uma energia barata à bolsa ainda que cara ao ambiente. |

